Canções de mui amigos

Que bom não ter nascido nos tempos das canções de amigo. Voltei da USP hoje para casa imaginando como se sentiam nossas ancentrais de além-mar ao ouvir tantos “ai flores, ai flores do verde pino”. Segundo meu professor de literatura portuguesa, Francisco Maciel, não há registro de poesia escrita por mulheres na Idade Média naquelas paragens. Nenhumazinha. Eram elas quase todas analfabetas.

Então apenas aos portadores de falo era conferido o direito humano básico de se expressar através das letras, de fruir da arte. E eles o faziam, nas canções de amigo, a partir de um eu-lírico feminino absolutamente desprovido de cérebro. O recurso aos paralelismos e estribilhos significavam “o homem dizendo que a capacidade intelectual feminina era inferior”, nas palavras do Francisco.

Tais poesias eram classificadas de acordo com o ambiente no qual se passavam – as serranilhas, na serra; as barcarolas, no mar; e assim por diante. Mas eram sempre ambientes externos, ou seja, ligados à superficialidade, ao que não é profundo. Já as canções de amor eram escritas do ponto de vista masculino e ambientadas na corte, ou seja, no lugar fechado da ‘introspecção’.

Mas segundo ele, El Rei Dom Dinis inovou a poesia daquele período ao compor canções de amigo nas quais atribuía capacidade de reflexão à mulher e a relação com o ‘amigo’ se dava nos mesmos moldes em que nas canções de amor. “Suas pastoras muitas vezes tinham personalidade de homem”, disse. Ou seja, Dom Dinis tentou com isso mostrar que as mulheres não eram idiotas, que tinham capacidade de pensar.

Curiosa a respeito desse El Rei, dei um google no nome do gajo. Ele nunca sonhou lá na Idade Média que hoje em dia a gente daria um google nele, né? Mas, enfim, cá estamos. Descobri que ele foi casado com a rainha mais querida dos portugueses até hoje, Isabel de Aragão. (Parêntese:  eu realmente não entendo como ainda podem gostar de reis e rainhas, coisa que já existiu por aqui rapidamente, mas que eu só conheço, felizmente, dos (http://livrousado.com livros. Rei pra mim, só se for das coxinhas. Tirando o Roberto, claro).

Bom, parece que a moça Isabel era muito querida porque tratava bem os pobres e os doentes, inclusive passava a mão na cabeça deles, e também porque gostava de sair por aí cheia de moedas de ouro para dar de esmola. Mas a turma gosta dela até hoje principalmente por conta de um tal milagre das rosas, que fez com que fosse considerada uma santa.

A lenda diz que um dia o rei-poeta descobriu que a rainha caridosa estava torrando as economias da corte e decidiu surpreendê-la numa manhã, antes que ela saísse para mais uma sessão de bondades. Encontrou-a no jardim do palácio, com a ponta do manto levantada, obviamente pesado de tantas moedas.

Então ele perguntou-lhe aonde ia tão cedo, ao que ela respondeu dizendo que ia arrumar o altar da igreja. Em seguida, ele indagou-lhe sobre que diacho ela levava no manto. E ela, muito espertinha, retrucou: “são rosas!”. E ele gritou, furioso, que ela mentia, já que era janeiro e, portanto, não era época de rosas. Foi quando então se deu o tal milagre. Ela respondeu: “senhor, não mente uma rainha de Portugal!” e deixou cair a ponta do manto de onde jorraram milhares de rosas brancas. Poético, não? Virou santa.

Eu, daqui do século XXI, desconfio que alguma moça letrada deve ter escrito algo muito bonito e inteligente naqueles tempos. Mas deve ter assinado com nome de homem. Ou deve ter guardado até a morte sem nunca ter mostrado a ninguém. Certamente, as poucas que podiam escrever, de alguma forma se expressaram. Mas ficaram invisíveis numa história que, como todas as outras, não foi contada por elas.

Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo?
E ai Deus, se verra cedo!

Ondas do mar levado,
se vistes meu amado?
E ai Deus, se verra cedo!

Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro?
E ai Deus, se verra cedo!

Se vistes meu amado,
por que ei gran coitado?
E ai Deus, se verra cedo!

(Martim Codax)

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