Os livros, filmes e discos (re)descobertos em 2010.
* Livro: Belvedere, Chacal (Cosac Naify, São Paulo)
* Livro: A obscena Senhora D, Hilda Hilst (Ed. Globo, São Paul0)
D de Derrelição, Hilé!
* Livro: O aprendiz de feiticeiro, Mario Quintana (Ed. Globo, São Paulo, 2005)
* Livro: A Rua dos Cataventos, Mario Quintana (Editora Globo, São Paulo, 2005)
Este é o primeiro livro de Quintana, de 1940. São 35 sonetos, em pleno modernismo.
* Livro: Da morte. Odes mínimas, Hilda Hilst (Editora Globo, São Paulo, 2003)
Ela conversa com a morte e a gente ouve tudo com o mais absoluto interesse. E em silêncio.
Durante o dia constrói
Seu muro de girassóis.
(Sei que pretende disfarce
E fantasia.)
Durante a noite,
Fria de águas
Molhada de rosas negras
Me espia.
Que queres, morte,
Vestida de flor e fonte?
- Olhar a vida.
***
* Livro: A teus pés, Ana Cristina César (Instituto Moreira Sales / Editora Ática, São Paulo, 1998)
Eu já conhecia alguma poesia da carioca Ana C. pela internet. Daí ano passado, na feira do livro da USP, comprei este livro por apenas R$ 10,00. Tinham outros, mas já era meu terceiro dia de gastança e resolvi me controlar. Arrependimento. O livro é muito bom. Na verdade, a edição traz, além de A teus pés (1982), outros três livros: Cenas de abril, Correspondência completa, e Luvas de pelica (1980). Abaixo, alguns trechinhos.

Samba-canção
Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz…
(De A teus pés)
**
Estou jogando na caixa do correio mais uma carta para você que só me escreve alusões, elidindo fatos e fatos. É irritante ao extremo, eu quero saber qual foi o filme, onde foi, com quem foi. É quase indecente essa tarefa de elisão, ainda mais para mim, para mim! É um abandono quase grave, e barato. Você precisa de uma injeção de neo-realismo, na veia. (De Luvas de pelica).
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* Livro: O ex-estranho, Paulo Leminski (São Paulo, Iluminuras)
Leminski é outro que não é fácil de encontrar por aí nas livrarias, apesar de ser possível achar alguns de seus livros pra baixar gratuitamente na internet, o que é ótimo. Fiquei toda animada quando vi o nome dele piscar pra mim no estande da Iluminuras na Feira do Livro da USP. Havia dois títulos e comprei ambos. Este, no entanto, deixa muito a desejar. Não por culpa de Leminski, que é sempre maravilhoso e quase sempre genial. Mas porque esta edição é descuidada (tem uma capa horrível, por exemplo) e cheia de erros bobos (de ortografia, inclusive). Espero que a editora corrija isso em breve. Leminski merece.
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* Livro: Dois em um, Alice Ruiz (São Paulo, Iluminuras)

Maravilha finalmente poder pegar Alice Ruiz com as mãos. Não é lá muito fácil encontrar edições de seus livros por aí. Até então eu a conhecia apenas pela internet. Felizmente a Iluminuras lançou esta edição, que reúne toda a poesia publicada pela autora na década de 80. Delícia de livro. Bom de ler de frente pro mar, ou no parque, debaixo de uma uma árvore, deitada de barriga pra cima. No colo de alguém, de preferência.
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* Livro: A morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstói (São Paulo, Ed. 34)
Genial.
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* Livro: Cordilheira, Daniel Galera (São Paulo, Companhia das Letras, 2008)
Do Daniel Galera eu tinha lido apenas o Dentes Guardados, de contos (Livros do Mal, 2001), que deu vontade de reler. Aliás, o meu ficou no Recife e preciso trazer. Tinha também visto a adaptação de “Até o dia em que o cão morreu” para o cinema (Cão sem dono, dir. Beto Brant) e gostei bastante. Cordilheira foi o único romance dele que eu li. O livro conta a história de uma jovem escritora premiada que, sozinha no mundo, decide passar uma temporada em Buenos Aires depois que seu namorado no Brasil se recusa a engravidá-la.
Engraçado que eu estive na capital argentina bem na época descrita no livro (2007, Casa Rosada em reforma, protestos contra as papeleiras etc)… impressão de que isso de alguma forma me aproximou da personagem. Podia imaginá-la naqueles cenários. Enfim, o Galera escreve de um jeito envolvente, dá vontade de devorar o livro de uma só vez. E a história é massa, levanta a velha, mas sempre interessante, discussão sobre realidade X ficção, só que no final a coisa desanda um pouco e a leitura fica quase adolescente. Ainda assim vale a pena.
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*Filme: Amores Perros (2000), dir. Alejandro González Iñárritu. Com: Gael García Bernal, Emílio Echevarría, Vanessa Bauche, Goya Toledo, Álvaro Guerrero. Em DVD.
A tradução desse filme para o português é “Amores Brutos”. Por uma lado é uma solução feliz porque seria impossível fazer uma tradução literal – “amores cachorros” em nosso país confere ideia totalmente distinta da que o título do filme apresenta. Eis a perda inevitável que temos com a tradução, já que os “perros” são personagens fundamentais da história.
Este foi o filme que lançou para o mundo o diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, vencedor do oscar de melhor filme estrangeiro anos depois com Babel. Ainda não revi Babel, mas minha impressão inicial de que Amores Perros é bem melhor parece se confirmar. De novo o filme me impactou… e faz uma semana que algumas cenas e personagens habitam minha cabeça (além da ótima trilha sonora). Sinal de que é forte. Mas ao mesmo tempo extremamente delicado, apesar de soar estranho usar tal adjetivo para descrevê-lo.
Em resumo: temos aqui três histórias – a de Octavio e Suzana, a de Daniel e Valéria, e a de El Chivo e Maru – passadas na Cidade do México, e que se relacionam a partir de um acidente de carro. Mais do que o acidente, no entanto, o que une essas histórias são os sonhos, as perdas, as dores e as culpas que carregam seus personagens. E amores grandiosos, que, no fim das contas, são o motor de cada uma das narrativas. Sem mais, recomendo fortemente.
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* Livro: Cantares, Hilda Hilst (Ed. Globo, São Paulo, 2004)
Esta edição reúne dois livros de poesia da autora: Cantares de perda e predileção (1983) – vencedor do prêmio Jabuti de 1984 – e Cantares do sem nome e de partidas (1995). Comprei esse livro para dar de presente de aniversário a uma amiga que tinha acabado de terminar um relacionamento. Sei lá que lado meu masoquista me fez ter tal ideia de jerico. Na ultíssima hora, a intuição mandou-me deixá-lo quieto na bolsa.
Minha amiga ficou sem presente. E eu fiquei uns dias em dúvida se tinha feito certo ou não, triste por não tê-la presenteado. Não tinha mais tempo para providenciar outra coisa – não queria qualquer coisa – e quando a encontrasse novamente seria tarde demais. Mas agora que terminei de ler o livro, sei que agi bem. Seria um presente cruel demais. Ler Hilda Hilst é sempre bom, mas, neste caso, é aconselhável que os nervos estejam mais ou menos no lugar. Abaixo um poema do Cantares de perda e predileção.
XXX
O Tempo e e sua fome.
Volúpia e Esquecimento
Sobre os arcos da vida.
Rigor sobre o nosso momento.
O Tempo e sua mandíbula.
Musgo e furor
Sobre os nossos altares.
Um dia, geometrias de luz.
Mais dia nada somos.
Tempo e humildade.
Nossos nomes. Carne.
Devora-me, meu ódio-amor,
Sob o clarão cruel das despedidas.
(Cantares de perda e predileção, p.64)
***









Pêda!
Também li Cordilheira…queria muuuito comentar com alguém, mas não conhecia quem tivesse lido. Amiga, odiei esse livro com todas as minhas forças. Que drama esse povo que só sabe escrever sobre ser escritor…e de maneira tão pouco original. Minha impressão é que o cara achou que era só botar uma mulher de personagem e o problema estava resolvido. E sempre aquela merda…tem sucesso, mas quer mesmo é ser mãe…
Vamos conversar sobre ele ao vivo?
Beijos!
Amiga, eu tava quase deletando essa sessão porque me dá uma preguiça imensa de atualizá-la (ta superdefasada já…) agora com seu comentário como que eu vou fazer isso? ahaahahha!
Putz, eu curti o livro até certo ponto, depois achei que a coisa desandou e deu até preguiça de terminar… Mas vamos conversar na volta, sim! Vou levar o de contos que tenho aqui, daí posso te emprestar se vc quiser…
beijos!!