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Exagerei no brilho? Não, tá ótimo assim. Pega uma cerveja na geladeira antes de sair. Não esquece a cópia do RG. Aí ele chegou chegando, bebaço, às 9 da manhã. “De chapéu de sol aberto pelas ruas eu vou…”.  Vambora, você demora demais. E o resto, pegou? Carnaval na terra é sagrado. “Voltei, Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço…”.  Saudade dessa brisa. Tá quente essa merda. Onde você combinou? Eu me fiz de louca, óbvio. “Eu vou esse ano pra lua, não é privilégio, foguete já tem…” Vai tá todo mundo lá como sempre. Ele falou que tava arrependido, que eu sou a mulher da vida dele, que queria conversar. Ah, vamo na Mangueira que dá mais futuro. E eu nem tchum. Tinha certeza que encontraria você por aqui! “Ô ô ô saudade, saudade tão grande, saudade que eu sinto do Clube das Pás, do Vassouras…”. Amsterdã? Eu achei que era Madri. Mas não teve jeito, antes de eu ir embora, a gente se beijou. “Sou beija-flor, dou um beijo e vou embora” Saudade tanta… Te procurei tanto, você sequer atende meus telefonemas. Vamo nessa, corre que o bloco já saiu! “A multidão me acompanha, eu vou…”. Segura minha capa que vai voar! Tem certeza que nos vimos ontem? A gente tava na paz, curtindo, sossegado… os caras chegaram com tudo. “O Galo também é de briga, as esporas afiadas e a crista é coral” Eu tô muito piriguete? Botei na boca e engoli tudo. Bateu a fome, hein. Nem me fala, saudade de tu inteira.  3 reais? que assalto! Até quando você fica? Ói o sucesso, ói o sucesso! Galera, olha a foto! Se a gente cortar pela Ribeira dá pra pegar o bloco lá na frente. Não, aqui não… vamos pra outro lugar. “Tã nã nã nã nã nã nã!” Debaixo do dragão, minha filha! Não te machucaram não, né? Ao menos depois disso espero que ele largue do meu pé. Sim, foi na concentração do bloco, na frente de todo mundo! Batemos um pratão de macaxeira. “Eu acho é pouco, é bom demais!” Que cagaço, foi por muuito pouco. Eu te ligo quinta-feira, vamos nos ver antes de você ir embora… Não adianta me ligar, eu não quero mais falar com você! Eu te odeio! Eu te odeioooo, não entendeu?? “Tã nã nã nã nã nã nã!” Eu te aaaaaamo! Muuuito! Por que essa vaca ta passando a mão nele? O quê? Eu não consigo te ouvir! Sim, eu virei a puta do verão! E você acha que eu me lembro de alguma coisa? “Ai, ai, ai, que ladeira do carái!” Moça, por caridade, eu preciso muito usar o banheiro, é urgente! Dormi com um pirata e acordei com um palhaço! De repente caiu aquela chuva horrorosa, eu me perdi de todo mundo e quando percebi tava lá, doida, doida, debaixo do dragão. “Não se perca de mim, não se esqueça de mim, não desapareça, que a chuva ta caindo e quando a chuva começa eu acabo de perder a cabeça” Volta pra mim, por favor, ao menos me escuta. Óbvio que eu fingi que não ouvi e não respondi de volta. Entrou pra gaveta dos babacas. 2 reais numa cerveja quente não dá, amigão. Só se for 3 por 5. A gente perdeu a linha mesmo… e o carretel. Um amigo meu ta numa casa aqui perto, a gente pode ir lá… De repente tinha 2, 3, 4, 5, 10 se pegando! “Minha ciranda não é minha só, ela é de todo nós, ela é de todos nós…” 1 real pra mijar, moça? A tia dele pegou a gente. E eu com essa roupa de abelha, mico do caralho. É claro que eu mandei aquele idiota à merda. “Descambei passando pelos bares, cheirei a menina e voei pelos ares” Ela sumiu, eu comecei a ligar e ela não atendia. Não iam fazer nada demais com um bando de playboy que nem a gente. Tá faltando uma asa? Hahaha, nem notei! “Tã nã nã nã nã nã nã!” O susto foi foda! Ai, amiga, fodeu, acho que me apaixonei… Acho que você bebeu demais. Olha lá a Joaninha! “Olinda, quero cantar a ti esta canção!” Vou arrancar tua boca pra mim. Vou passar mal… se ela não sair dali eu vomito na cara dela! “No pique do frevo caí como um raio, me segura senão eu caio, me segura senão eu caio” Caralho, você rasgou minha roupa! Me pinta, sim, do jeito que você quiser, pode pintar… Vamos lá, a gente relaxa um pouco, descansa, depois volta. “Me diga, morena, o que vamos fazer… amar, sentir prazer” Quando a gente se viu de novo eu tinha certeza absoluta de que ela tinha beijado outro cara. Claro que eu surtei! E eu lá me lembro de ter beijado aquele cara? Ignorei solenemente. Deixei falando sozinho. Eu lembro é dela… “Minha carne é de carnaval, o meu coração é igual…” Sim, pinta onde você quiser, meu amor… pinta tudo. E nós lá, loucos, debaixo do dragão. “Venha, veja, deixa, beija, seja o que Deus quiser…” Chance zero de resistir.  Daí a gente terminou tudo no dia seguinte. “Tã nã nã nã nã nã nã!” Eu te amo maaaaaaaais!  Juro que não vi graça. Foi uma baixaria, minha filha, ele queria avançar em cima dela. “Loira ou morena, não importa a cor, não se bate nem com uma flor” Tá pra nascer o namorado ciumento que vai acabar com meu carnaval. Ah, mas ela beija muito melhor que ele, isso eu te garanto. No dia seguinte eu tive que contar, né. “E dizer bem alto que a injustiça dói, nós somos madeira de lei que cupim nao rói!” Muito tempo depois eu consegui sair do dragão e nunca mais vi o sujeito na vida. A gente queria só se divertir… A turma correu pra segurar ele, claro. É uma pena ter acabado desse jeito, mas o que eu podia fazer? “É de fazer chorar quando o dia amanhece e obriga o frevo a acabar… Ó, quarta-feira ingrata, chega tão depressa só pra contrariar”. Eu te amo pra vida inteira, por todos os meus carnavais! “Tã nã nã nã nã nã nã!” Ahn?

E essa merda de maquiagem brilhosa que não sai?
Essa bosta dessa tinta no meu corpo também não.

Ano novo
velho amor
dor crescente
lua cheia encara
o quarto minguante.

Tudo de novo
o ano cresce
e a lua espia
o amor minguado
o quarto cheio de dor.

Cresce a lua
míngua lentamente a dor
novo ano passa
e o amor se esvai
no velho quarto.

A lua é nova
a dor passou
o ano míngua
e o quarto crescente
novamente se enche

de amor.

No salão

Uma esquina cool de São Paulo. Um shopping center. Uma fome e uma praça de alimentação claustrofóbica. Um misoshiro e um temaki de salmão.

- Sem maionese nem cream cheese, por favor.

Vitrines em promoção. Uma lingerie Calvin Klein divina pela metade do preço e uma mulher inteiramente orgulhosa de si por saber conter seus impulsos consumistas. Um salão de beleza. Maiara, um livro, e Sônia, a manicure.

- Olá, tudo bem?
- Tudo bem, e você? Vamos lá?
- Vamos.
- Pode se sentar aqui.
- Ok.
- Só as mãos?
- Sim, hoje só as mãos.

Em meio à barulheira do salão, Maiara fazia malabarismos para conter as páginas do livro com apenas uma mão -  contando com um pouco de ajuda do cotovelo – enquanto Sônia cortava-lhe as unhas da outra. O visível esforço de Maiara para compenetrar-se na leitura não comoveu Sônia, que puxou assunto.

- Olha só, que absurdo! Onde esse mundo vai parar?
- Ahn?
- Ali na porta, não está vendo que pouca vergonha?
- Não. O que está acontecendo, Sônia?

Maiara achou que fosse uma briga. Um bate-boca. Olhou e nada. Nada estranho na entrada do salão.

- Não estou vendo.
- Não vê ali na porta aqueles dois se beijando no maior amasso? Esse mundo está perdido. Que nojo. Devia ter uma lei que proibisse isso!

A sopa japonesa subiu-lhe pelo estômago e por pouco Maiara não se conteve. Séria, olhou nos olhos de Sônia. Não disse uma única palavra. Calaram-se as duas. Voltou de novo a atenção ao livro. Agora ainda mais compenetrada e com maior esforço para mantê-lo aberto com uma só mão, ora cheia de algodões molhados, ora cheia de creme. Só tornaram a se falar no momento em que Sônia pegou o alicate.

- Ah, por favor, tome cuidado, que minha cutícula é muito fina.
- Eu sei, já vi.

Sim, Sônia era manicure experiente e sabia. Sabia a ponto de manejar o alicate nas cutículas de Maiara como um pedreiro maneja uma britadeira no asfalto.

Maiara tensa, esperando a primeira esfolada. Seria das grandes. Ao mesmo tempo, concentrava-se em tragar seu livro e engolir o desprezo que sentia por gente como Sônia. Pensou rapidamente em alguns de seus melhores amigos. Lembrou que estava em São Paulo, em plena Rua Augusta, e achou um absurdo tudo aquilo.

Sônia, com sangue nos olhos e ódio nas mãos, queria se livrar o mais rápido possível da pervertida que a desprezara. Teria esfolado um por um os seus dedos se pudesse. Mas não podia. Era cliente antiga. Restava-lhe terminar seu serviço o quanto antes. Foram 20 minutos. Nunca Maiara tivera suas unhas feitas em tão pouco tempo. E com tanta perfeição. Nem um único corte. Sônia havia conseguido e estava orgulhosa. Maiara também. Terminara mais um capítulo do livro.

- Pronto.
- Obrigada. Já deixei pago. Até mais.
- Até.

Até nunca mais.

A capa da revista Carta Capital desta semana anuncia um especial sobre as eleições de 2010. Dos 36 rostos que a ilustram, 3 são de mulheres. Dos 11 nomes de especialistas e entrevistados escolhidos pela revista para falar sobre diversos assuntos de importância nacional, nenhum é do sexo feminino. Uma única pessoa negra, que é também mulher, aparece: Marina Silva. A capa da revista, no fim das contas, é de fato um retrato fiel da configuração do poder em nossa sociedade: branco e masculino, trajando terno e gravata, símbolo claro da classe social a que pertencem todos esses personagens. Não seria um chute incluir entre essas características a heterossexualidade e a religiosidade.

Carta Capital acerta também no tema (e o no timing) da capa. Sim, o clima de eleições já está no ar, vide o bombardeio conservador ao 3º Plano Nacional de Direitos Humanos e a incapacidade do Planalto de enfrentá-lo, confirmando que teremos mais um ano de difíceis escolhas eleitorais. Pressionado pela igreja e pelos militares, o presidente Lula já anunciou que mudanças serão feitas no texto que trata da legalização do aborto e da apuração de crimes cometidos pelo Estado nos anos de ditadura. Sem falar nos ataques dos ruralistas e dos donos da mídia.

As polêmicas que ameaçam o 3º PNDH deveriam unificar movimentos e organizações da sociedade civil numa consistente defesa de sua integralidade, até porque, ao contrário do que afirma o presidente – que as mudanças serão feitas para refletir as posições do governo – as formulações ali contidas foram construídas coletivamente em conferências municipais, estaduais e nacional, ou seja, devem ser reflexo sobretudo de um rico processo que envolveu, além do governo, a sociedade.

A sensação que dá, no entanto, é que os movimentos sociais são apenas espectadores da polêmica entre a direita e o governo. Deve ser sinal da letargia em que nos encontramos depois de tantos anos de política conciliadora pra todos os lados. Sei que há vários manifestos circulando pela internet e alguns esperneios em blogues por aí. Mas não parece haver a mínima movimentação no sentido de meter sequer a unha do dedão do pé numa porta, que num momento desses merecia ser colocada abaixo por um batalhão.

Semana que vem acontecerá aqui em São Paulo a primeira reunião de organização do ato do Dia Internacional da Mulher de 2010. Neste ano, inclusive, a Marcha Mundial das Mulheres realizará sua 3ª ação internacional, reunindo mais de 3 mil mulheres numa caminhada de 10 dias de Campinas até São Paulo, começando no dia 8 de março. Acho que esse comecinho de ano deixa muito claro que nossos desafios permanecem os mesmos.

Seguir defendendo os direitos humanos das mulheres e afirmando que nosso corpo nos pertence e que temos autonomia para decidir sobre a maternidade e sobre todas as questões que dizem respeito às nossas vidas. Seguir denunciando o agronegócio e a violência no campo contra trabalhadoras e trabalhadores e afirmando que a comunicação é um direito humano e que nosso corpo não é mercadoria.

Seguir, sobretudo, dizendo ao mundo que não aceitamos nenhuma conciliação com o machismo, com o racismo, com a homofobia, com os fundamentalismos, com a intolerância, com a tortura, com as desigualdades e com a pobreza. Que não abrimos mão da nossa liberdade. E que continuaremos em luta por uma sociedade onde as relações entre homens e mulheres – que são sempre de poder – sejam igualitárias, seja lá que cor e indumentária lhes cubram a pele, seja lá como carreguem seus desejos e suas cruzes.

Eis que 2009 – que começou numa trilha lá no Rio de Janeiro – terminará em outra, na Bahia. Cá estou na Chapada Diamantina, no último dia do ano, com gente que eu amo muito. Passei alguns dias sem internet e sem celular, ouvindo apenas o som que brota do mato e corre das cachoeiras. E histórias de onça, de incêndio e de amor. De gente que veio aqui morar porque se apaixonou. Feito Mano, que largou a vida em Salvador há 15 anos. Foi ele que nos guiou até um dos lugares mais bonitos que estes meus olhos urbanóides já puderam ver.  E feito Kyra, sua companheira e mãe de Ariel, que veio lá da Nova Zelândia e espera a chegada de mais uma cria.

Depois de alguns dias incomunicável, aproveito pra pensar na vida, no ano que terminará e no que virá em algumas horas. Olivinha tem razão quando diz que sente o espírito renovado depois de horas numa trilha e de um bom banho de cachoeira. É que quando a gente se depara com o tamanho, a força e a imponência da natureza, a gente fica ao mesmo tempo tão pequena e tão grande diante do mundo.

Aquela guerra diária que acontece dentro da gente – que de tão cotidiana não permite perceber o quanto machuca – parece que aceita uma trégua. E é assim, de trégua, longe do asfalto de São Paulo e do Recife, que eu penso em 2009. Na nova graduação que eu comecei, no novo emprego, nas pessoas que eu encontrei nessas novas trilhas e nas que reencontrei em caminhos mais antigos. E, inevitavelmente, penso nas poucas e boas pessoas que eu quero carregar comigo sempre.

Elas casaram. Separaram. Foram deixadas pela pessoa que amam. Choraram no telefone de madrugada. Tiveram filhos. Ficaram confusas. Voltaram pra terapia. Compraram apartamento, planejaram filhos pra 2010. Se formaram depois de longos anos na universidade. Terminaram o mestrado, começaram o doutourado. Conheceram o amor de suas vidas. Cortaram os cabelos compridos da vida inteira. Mudaram de cidade. Mudaram de país. Largaram o velho emprego. Decidiram voltar a estudar. Abriram a própria empresa, passaram noites sem dormir. Perderam gente querida e arrumaram uma dor e uma saudade pra carregar pro resto da vida. E não deixaram de sorrir nem de amar.

Daqui a pouco a folhinha do calendário vai mudar. E eu só vou perceber quando errar a data na primeira folha de cheque que eu passar. O que eu quero pra 2010 é continuar tendo as pessoas que eu amo por perto, seja lá a quantos quilômetros elas estejam de mim. E desejo também manter insaciada essa minha sede de vida, seja lá por que trilhas ela me levar.

Não sei quando surgiu nem quem inventou a tal rixa entre Pernambuco e Bahia. Eu só sei que a pernambucana aqui tem tido cada vez mais motivos para contrariar a suposta regra que diz que pernambucanos e baianos se odeiam e morrem de inveja mútua.

A primeira vez que eu pisei na Bahia foi em 1999. Foi por essa época também que eu conheci Olívia, minha amiga-irmã-faraway-so-close, pernambucaníssima, mas nascida em Salvador. Era a tal viagem do 3º ano. E dela guardo com carinho a lembrança do inusitado show de Roberto Carlos em Porto Seguro. Inusitado porque, a princípio, a programação da noite incluía mais uma balada de axé music. Mas como ia ter show do Rei, a agência de turismo propôs a mudança no roteiro. E lá fomos nós nos divertir loucamente bem longe do axezão.

Passados dez anos me vi novamente numa apresentação do Rei Roberto. Lá fui eu conferir o show de comemoração dos seus 50 anos de carreira, em setembro passado, no Ginásio do Ibirapuera. Em companhia do mais querido dos baianos, o Hélio, que o acaso colocou esse ano na minha vida. Ele trabalha comigo e é um dos maiores workaholics que eu conheço. Sim, baiano workaholic existe, mas mora em São Paulo. E chama bolo de rolo de rocambole só pra me provocar. Depois enche a pança e lambe o beiço.

Passaram-se os mesmos dez anos para que eu voltasse à Bahia. E pra que eu descobrisse o tempo que eu perdi e as tantas vezes que ainda quero voltar lá. Hoje essa vontade de Bahia ficou do tamanho do mundo num Teatro Abril lotado para ouvir Maria Bethânia, a voz mais linda do Brasil.

Mais que ouvir, sentir na pele, nos cabelos, na espinha, no meio do peito, no corpo inteiro. Acho que só Bethânia poderia fazer um show chamado “Amor, Festa, Devoção”. Uma experiência que todo ser humano merece ter na vida. Ouví-la cantar só na voz, com aquele cenário vermelho-almodóvar, a respiração do teatro suspensa, “chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder…” até irromperem gritos e palmas sem fim: “não dá mais pra segurar, explode coração…”.

Como diria uma amiga, dá vontade de colocar Bethânia numa caixinha e levar pra casa. Eu ainda colocaria mais um tanto de coisa que só tem na Bahia. Ah, pernambucanos do mundo, deixem de pudores e façam como eu, declarem amor à Bahia. Porque ela deu ao mundo Bethânia. E me deu um inesquecível show de Roberto Carlos. E Hélio e Olivinha. E lugares lindos pra gente se encontrar e ser feliz.

A carioca Patrícia Amorim, 40, foi eleita na última segunda-feira para presidir o Flamengo nos próximos dois anos. Ex-atleta do clube – representou a natação brasileira nos jogos olímpicos de Seul em 1988 – ela já havia comandado a vice-presidência de esportes olímpicos do Flamengo por três anos. Em 2000, tornou-se vereadora do Rio de Janeiro, tendo sido eleita pelo PFL (atual DEM) e, depois, em 2004 e 2008, pelo PSDB. A maioria das notícias que li sobre o assunto afirma que Amorim é a primeira mulher a comandar o Flamengo em seus 114 anos de existência. A história não me chamou a atenção apenas por isso, mas também porque serviu para constatar mais uma vez a miséria do nosso jornalismo (com algumas exceções, claro).

Patrícia Amorim

Li uns 20 textos e me assutei com o alto nível de CTRL C + CTRL V na rede. Nenhum conseguia tirar a pulga detrás da minha orelha: ela é a primeira a comandar o Flamengo apenas? Que outras mulheres comandaram grandes clubes brasileiros (ou pequenos, que seja)? Algumas notícias iam um pouco além, afirmando que ela é a primeira a comandar um grande clube carioca. E no release do lançamento de sua candidatura encontrei a afirmação de que, se eleita, ela seria a primeira mulher a comandar um time de futebol. Do mundo? Também não estava claro. Mas eis que o Juca Kfouri me desfez a dúvida: o Conrinthians já teve uma mulher na sua presidência, Marlene Matheus, que, segundo o jornalista, só foi eleita porque o marido Vicente Matheus não podia ser reeleito mais uma vez (eu sempre tenho pé atrás com esse tipo de comentário). Não entendo por quê que ninguém citou o fato.

Minhas buscas, no entanto, por outro lado me surpreenderam positivamente. Parece que em 2009 as mulheres ocuparam mais alguns centímetros do árido terreno que é o mundo do futebol. Donna Powell, por exemplo, foi a primeira mulher a treinar um time (da 6ª divisão do campeonato inglês). Mais uma vez as matérias não são tão claras, mas merecem atenção. Eveliny Almeida foi a primeira a comandar um trio de arbitragem no campeonato cearense da primeira divisão. Deve ter mais coisa por aí.

Resolvi na sequência pesquisar comentários sobre a eleição da Patrícia Amorim. Encontrei, por exemplo, a seguinte fala do presidente do Vasco, Roberto Dinamite: “Espero que a Patricia possa fazer um trabalho dentro do Flamengo junto com seus colaboradores porque eles estão ali para ajudá-la. Sozinha, ela não consegue nada. Não quero dizer que ela não é competente e sim que ela precisa ter um grupo forte para poder administrar um clube da grandeza do Flamengo”. O grifo é meu. Salta aos olhos, não? Apesar da ressalva que faz ao final, eu duvido muito, mas muuito mesmo, que esse comentário fosse feito se um homem tivesse sido eleito. Apesar de afirmar o contrário, o que Dinamite diz é que ela não é competente e que por isso, por ser fraca (porque é mulher) precisa de um grupo forte (de homens, alguém duvida?) para administrar o clube.

Depois veio o comentário do Juca Kfouri sobre a polêmica do penta/hexa do Flamengo, que chega arranhou minha vista. É a afirmação de um machismo primário num contexto de destaque do avanço das mulheres – que grita a todo momento que ‘não queremos mais esse mundo’ para um mundo que ainda resiste a essas mudanças, como deixa clara a pérola: “Presidente do Sport, se for macho mesmo, processará também o presidente da CBF. Que nesta terça-feira, desejou sorte à Patrícia Amorim e complementou: “Tomara que ela traga o hepta!”.

Por fim, encontrei no Twitter um poço infinito de comentários sobre a eleição da Patrícia Amorim. Muitos positivos, é verdade. Selecionei abaixo alguns dos que me saltaram aos olhos e que merecem reflexão. Rapidamente, consigo listar alguns pontos: 1. a associação da mulher ao espaço privado da casa, 2. a valorização da mulher a partir do seu padrão de beleza, 3. como o machismo é medroso, não? Confiram.

R. Teixeira sobre Patrícia Amorim, presidente do Fla: “Estou acostumado com uma presidente, todos nós homens estamos, pois temos 1 em casa.”

ALôô SRA PATRICIA AMORIM! jogos olimpicos uma ovaaa,vamos investir no futebol q da mais dinheiro sua vaca!

tenho medo do que essa Patricia Amorim vai fazer :S:S

Patrícia Amorim é agora a presidente do Flamengo, vamos ver no que isso vai dar né.. hahahha

PATRICIA AMORIM É O CARALHO

brother , será qe a patrícia amorim vai cagar completamente o flamengo ? s: tenso

(primeiro post sério) Patricia Amorim nova presidente do Fla. “nada como uma mulher pra arrumar a casa” Palavras da própria…

Fazia tempo que eu não via alguém começar tão MAL alguma coisa na vida. A tal Patricia Amorim pode ser a PIOR presidente do Fla em anos!

to com o pé atrás com a Patrícia Amorim na presidência do fla,sei la ela não tem o ”vicio”,e ano q vem é ano de libertadores #MEDO

Patricia Amorim é a nova presidente do Flamengo. Pra um time de Bonecas, uma boneca para presidente.

#Flamengo leva o título do Campeonato Brasileiro 2009 e Patrícia Amorim ganha a presidência. Espero q ela organize a casa, as dívidas, etc.

Essa patricia Amorim nao sabe nada de futebol!!To nem ai pra esporte amador.Flamengo é futebol!!

Será que eu sou o único rubro-negro levando fé na Patrícia Amorim?

prefiro estar enganado, mas não sinto muita firmeza na Patrícia Amorim :/

Richarlyson quer seguir o exemplo da Patrícia Amorim e se tornar a primeira presidente mulher do Sâo Paulo…

Patrícia Amorim, presidente do flamengo, é linda demais. Parece uma bonequinha!

nossa o nova presidente do flamengo patricia amorim e mor gata!!

Ainda que Patrícia Amorim não seja a primeiríssima a conquistar o feito, e que nem feminista seja, o fato é que o comando de um grande clube de futebol brasileiro como o Flamengo por uma mulher contribui para mudar um pouquinho os rumos machistas da nossa história. Trata-se de um desvio no gráfico dos padrões. Precisamos de muitos outros até que deixem de ser desvio e se tornem um novo padrão, o da igualdade. Para isso precisamos também de historiadoras/es, pesquisadoras/es e jornalistas que contem direito essa história. Que a escrevam e, se preciso, reescrevam com outro olhar.

Vez por outra alguém me pergunta como é morar em São Paulo, se eu gosto daqui e o que eu acho da cidade. Normalmente essa pergunta vem acompanhada de outra, cabulosa: “você pretende morar aí para sempre?”. A última vez que isso me aconteceu foi hoje, depois do trampo, tomando chopp com uma amiga do Recife que vem de mala e cuia no próximo ano fazer mestrado na PUC.

Confesso que “para sempre” é uma expressão da qual desconfio desde muito cedo. Isso é algo que se começa a aprender na infância, com as primeiras leituras. Se os finais em que todos são felizes “para sempre” são típicos de contos de fadas e histórias de princesa – aquelas moças magrelas e loiras que beijam sapo – desconfiemos. Na adolescência, a primeira decepção amorosa confirma: o amor da sua vida, descoberto aos 15 anos, aquele que era “para sempre”, não era. Ainda bem. Mais uma vez, desconfiemos. Adelante. Simples.

(Parêntese: Ok, não é tão simples assim – rolam uns dias sem dormir, uns quilos a menos, umas dores no estômago, uns litros de lágrima, uns colos de mãe, uns porres, uns vexames, e umas amigas de mau humor por não aguentarem mais ouvir seus lamentos. Mas passa. E finalmente a gente enjoa de Legião e, que delícia, entende Vinícius. E vem outro amor. E outros parasempres desfeitos. Às vezes as consequencias pioram. Mas sempre serão “para sempre” – porque, afinal, é bom que seja assim – e aí o coração caleja um pouco e a gente também aprende a fazer melhor uso do juízo. Ou não, já diria alguma amiga me olhando seriamente.)

Depois, quando a gente cresce um tanto e o mundo diminui um tico, dá aquela vontade de abraçar tuuuudo. O mundo inteiro, corrê-lo, bebê-lo de guti-guti, mastigá-lo com prazer, fechar os olhos e sentir o gosto de cada pedaço. E aí a gente percebe que morou a vida inteira na mesma cidade, no mesmo bairro, na mesma rua, no mesmo prédio e desconfia, mais uma vez, do “para sempre”. E vai embora. “Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí”. E logo aparece alguém: “é para sempre?” Quando o mundo vai aprender que dessa expressão não se abusa?

Um dia pretendo preparar uma lista das coisas que eu amo (para sempre) em São Paulo. Vai facilitar minha resposta quando me perguntarem se eu gosto daqui: vou começar dizendo que São Paulo tem museu, museu, museu, música, música, música, dança, dança, dança, teatro, teatro, teatro, cinema, cinema, cinema, que o Rio é do lado e Buenos Aires é logo ali.

E quanto à tal pergunta, responderei sem pestanejar: sim, viverei em São Paulo, por enquanto, para sempre.

“Agora não pergunto mais aonde vai a estrada…”

Era pouco mais de meia-noite quando eu desci do ônibus na Vergueiro depois de uma hora e meia desde que havia deixado a USP, incluindo uma pausa na Paulista para um pedaço de pizza. Mais dez minutinhos de caminhada e estaria em casa. A cabeça na Grécia, em Aristóteles, na Retórica, na Poética e na prova que eu ainda faria no dia seguinte. A última do semestre, finalmente. Tentava pensar nisso. Descia tranquila, ouvindo meu coração bater. O silêncio é tão grande no meu bairro que à noite eu escuto meu coraçao bater como se fosse a vizinha batendo um martelo. Bate tão forte que todo mundo na rua deve ouvir. (Meu coração, claro, já que por sorte eu tenho uma vizinha que não faz barulho à noite).

Era, portanto, assim, ouvindo meu coração, e cansada depois de mais duas provas, menos três refeições e menos de 12 horas de sono em 3 dias, que eu caminhava pra casa. De repente, encostou um carro perto de mim na calçada. Normalmente, acho que eu sentiria um medinho, apressaria o passo, e não pararia. Mas a cabeça estava tão cheia de coisa que nem me dei ao trabalho.  O motorista baixou o vidro:

- Por favor, você sabe onde fica o Hospital Santa Rita?

Eu ainda pensei durante alguns segundos, mas não sabia.

- Ih, moço, não sei. Melhor você perguntar a outra pessoa.

- E o nome da princesa, qual é?

Não lembro se realmente eu não tinha entendido ou se tinha e resolvi fingir que não tinha pra dar chance ao idiota de desfazer a merda.

- Ahn?

Perguntei, inocente.

- Qual é o nome da princesa?

Repetiu, como se perguntasse de novo onde fica o Hospital Santa Rita.

Nenhum músculo do meu rosto se moveu. O corpo fraco, fraco, só conseguiu dar as costas e seguiu adiante no mesmo ritmo. Meia dúzia de passos depois, mil e duzentas respostas ao idiota pulavam na minha cabeça. Não tinha me livrado de nenhuma delas ainda quando, a uma esquina de casa, dois rapazes atravessaram a rua em minha direção e eu aproveitei o momento para atravessar no sentido contrário, que, afinal, era o meu. Enquanto cruzavam por mim, nas minhas costas, um deles mandou:

- Não tem medo de andar sozinha na rua uma hora dessas, não?

Terminei de atravessar, virei-me na direção deles, olhei, e respondi:

- Não.

E fui-me embora. Ainda me virei uma vez mais e vi que estavam parados em frente a um portão, me olhando feito idiotas. Nem sei que intenção tinham com a pergunta. Acho até que não queriam me assustar. O que me choca é a capacidade de cada um desses sujeitos de se sentir muito à vontade para abordar uma mulher na rua de madrugada e chamá-la de princesa, ou tentar meter-lhe medo, ou advertí-la (haha) de algo, como se o estar na rua de madrugada fosse domínio, espaço e direito deles, que, por estar sendo invadido, usurpado, violado de alguma forma, deve receber a devida resposta, reação ou ameaça.

Fiquei pensando nas intenções do primeiro sujeito. Será que ele achou que eu ia responder com um sorriso? Ou será que ele acha que mulher que anda sozinha de madrugada na rua só pode ser prostituta? Neste caso, uma prostituta de mochila, carregando pasta, livros e guarda-chuva. E o segundo, queria o quê me falando aquilo? Dizer que não era hora de uma mocinha como eu estar andando sozinha na rua? Me fazer sentir ameaçada na minha esquina?

Pra fechar com chave de ouro, já em casa, de banho tomado e novamente tranquila a ouvir meu coração bater, sentei para estudar e me deparei com Aristóteles: “E são mais belas as virtudes e ações das pessoas que são mais distintas por natureza como por exemplo, as do homem mais do que as da mulher.” Desisti. Vim exercitar a minha própria retórica.

Poética

Chegue pra cá
E me dê um chêro, vá.

 

Retórica

Sai pra lá
Sem mimimi pra cima de moi.

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