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Tenho certeza que quando comecei a estudar jornalismo na UFPE minha família esperava que eu virasse repórter ou editora de algum grande jornal. Os porteiros do meu prédio, que me viram crescer no pilotis do Edifício Zumbi imitando as paquitas e encenando peça de teatro, aguardavam o dia em que eu iria apresentar o Jornal Nacional no lugar da Fátima Bernardes. Eu escrevia direitinho e tinha um rostinho bonito… devia mesmo servir pra uma dessas coisas. Mas bem cedo, pra variar, eu contrariei as expectativas. Logo após o primeiro ano, o que menos me animava na faculdade era o jornalismo. Era no cineclube, no bar e no movimento estudantil que eu encontrava o que realmente me interessava. E foi assim que no segundo ano eu entrei pro Diretório Acadêmico e, logo em seguida, pra Enecos (Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social) e pro DCE.

E foi graças à Enecos, principalmente, que eu me encontrei no mundo do jornalismo e virei uma defensora e militante do direito humano à comunicação. “Hãn?”. Nessa caminhada eu colaborei com o Jornal Sem Terra, Jornal Brasil de Fato, Revista Caros Amigos, além de publicações de organizações e sindicatos. Um sujeito do meu curso uma vez abriu a boca pra dizer que duvidava que eu fosse capaz de recusar trabalho na Veja se um dia eu tivesse a oportunidade. “Hãn?”. Ele não conseguia entender. Um colega dele, mais brilhante, tinha convicção de que nós estávamos no DA treinando pra virar gestores públicos. “Hãn?”. Na cabeça deles devia estar mesmo chovendo de baixo pra cima.

Assim que me formei, vim pra São Paulo e, algum tempo depois, estava trabalhando e militando no Intervozes. Tinha uma dificuldade enorme de explicar o que era e o que fazia o Intervozes quando alguém me perguntava. Ainda mais quando ligavam pra lá querendo saber sobre o nosso trabalho. “Ahn… a gente defende o direito humano à comunicação… é… a democratização da mídia… o controle social… não, não é censura… ONG? não, não é bem ONG… ok, é uma ONG… não, não tem curso de vídeo pra criança… software livre… não, a gente não monta rádio comunitária… não, aqui não é da NET…”. Acho que até pra minha família eu tinha dificuldade de explicar direito.

Mas eis que acaba de sair do forno o vídeo Levante sua voz, realizado pelo Intervozes, que mostra de maneira sensível, didática e bem humorada a situação da concentração da mídia no Brasil e o significado do “direito humano à comunicação”, razão de ser desse coletivo que reúne gente no Brasil inteiro que luta pela liberdade de comunicar. Queria mostrar pra minha vó e pra minha mãe – que talvez um dia tenham imaginado que eu fosse escrever pra Veja ou pro Estadão – e pra Seu João e Reginaldo, que ainda devem achar que qualquer dia desses eu vou apresentar um telejornal da Globo.

O vídeo segue abaixo. Ficam os parabéns ao Intervozes, ao Pedro Ekman e a toda equipe que ralou pra realizá-lo.

Ficha técnica:
Roteiro, direção e edição: Pedro Ekman
Produção executiva e produção de elenco: Daniele Ricieri
Direção de Fotografia e- câmera: Thomas Miguez
Direção de Arte: Anna Luiza Marques
Produção de Locação: Diogo Moyses
Produção de Arte: Bia Barbosa
Pesquisa de imagens: Miriam Duenhas
Pesquisa de vídeos: Natália Rodrigues
Animações: Pedro Ekman
Voz: José Rubens Chachá
Apoio: Fundação Friedrich Ebert Stiftung

E atenção:
CC – Alguns direitos reservados
Você pode copiar, distribuir, exibir e executar a obra livremente com finalidades não comerciais.
Você pode alterar, transformar ou criar outra obra com base nesta.
Você deve dar crédito ao autor original.

Quando eu era adolescente e jogava vôlei, lembro que minha mãe reclamava quando eu saía de casa pro treino usando roupa de treino. Explico-me: a roupa de treino incluía short de lycra, desses justos, que às vezes eram bem curtos. Eu usava também uns calções de tactel folgadinhos, mas que também não eram lá muito compridos. Eu tinha 12, 13 anos, e ela dizia sempre pra eu colocar uma calça por cima pra não sair na rua com as pernas de fora, afinal eu já tinha “corpo de mocinha”.

Eu conseguia entender perfeitamente que o que ela queria dizer era que, apesar da pouca idade, eu era bem gostosinha e chamava a atenção dos homens na rua. Eu ficava enfurecida e não sabia se era mais por conta das recomendações dela (que eu nem sempre seguia) ou pela constatação de que, de fato, tá cheio de cara no meio da rua que se acha no direito de gritar “gostosa!” ou de soltar um assovio quando passa uma mulher na sua frente. Tem uns mais ousados que chegam junto e soltam um “bomm diiia”, assim, devagarinho, quase no seu ouvido. Aí o sangue sobe até a testa, dá aquela vontade de rodar a mão na cara do sujeito, mas aí a gente respira fundo e, se tiver disposta e com paciência, grita de volta o bom e velho “nunca viu mulher na vida não, seu imbecil??”. Se tiver com preguiça, faz cara de durona e passa reto.

Com o tempo, no entanto, eu percebi que não importa a porra da roupa que a gente tá usando. Pode ser minissaia, jeans e camiseta ou até mesmo um sobretudo – aprendi aqui em São Paulo que o machismo sobrevive aos dias mais rigorosos do inverno – vai ter sempre um idiota pronto pra soltar uma gracinha. Pode ser inclusive em ambientes teoricamente progressistas, como os espaços do movimento estudantil. Quem que já viveu essa experiência nunca foi interrompida com um assovio numa sala de aula na hora de dar um recado ou numa plenária de congresso?

Apesar de entender a preocupação da minha mãe, que obviamente só queria me proteger, eu aprendi com os anos – e com o feminismo – que a questão é mais complexa e precisa ser enfrentada não dizendo às meninas e às mulheres que escondam seus peitos, pernas e bundas, mas questionando com firmeza o machismo e afirmando nossa autonomia sobre nossos corpos e nossas vidas.

Lembrei disso tudo por conta do episódio da Uniban. Fiquei chocada quando li a notícia na madrugada do dia 29, contando que a estudante Geisy Arruda precisou sair da universidade escoltada pela polícia sob gritos de “pu-ta! pu-ta!” por usar um vestido curto . Mas ontem fiquei ainda mais perplexa ao ler sobre a decisão da universidade de expulsar a garota. Onde é que o mundo vai parar? Daqui a pouco tem juiz condenando vítima de estupro porque estava andando de shorts numa rua escura.

A lógica adotada pela Uniban para culpar a moça e expulsá-la da instituição autoriza a reação dos que a humilharam no dia 22 de outubro. Ao fim e ao cabo, é a mesma lógica que autoriza o estuprador, o marido que bate na mulher, o pai que maltrata a filha. É a mesma também que autoriza atitudes machistas “menores” que, de tão cotidianas, passam despercebidas, como se fossem naturais. É o assovio no meio da rua, é o moleque que passa a mão na bunda da mina na balada, é o namorado que a proíbe de usar determinada roupa, é a auto-censura na hora de decidir se usa ou não um decote (ah, mas eu vou ter que voltar de ônibus à noite, melhor não…).

Em todos esses casos, existe um senso comum muito forte que ainda pensa que a mulher é culpada – por andar à noite numa rua escura e pouco movimentada, por contrariar a opinião do pai-patrão, por sair na rua de minissaia, por andar de forma insinuante, etc etc. A reprodução dessa lógica em dimensão bem mais ampla, como é o caso da Uniban, felizmente lança luz sobre o cerne da questão – o machismo – e desperta a reação da sociedade.

É certo que muuuita gente deve estar concordando com a decisão da instituição. Mas o fato é que tanto a mídia, como entidades da sociedade civil (notadamente as organizações feministas, mas também estudantis) e órgãos do governo, como a Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres e o Ministério da Educação, já se manifestaram em repúdio à decisão da Uniban de expulsar a aluna. Eu espero sinceramente que essa universidade seja punida de alguma forma pelo MEC, que a garota entre na justiça e ganhe uma bela fortuna e que a sociedade aproveite a oportunidade pra avançar um pouco mais na luta contra o machismo.

Agora eu vou dormir, lembrando da raiva que eu tinha do mundo e da inveja que eu tinha do meu irmão quando a gente voltava da escola a pé, debaixo do sol do Recife ao meio-dia, e eu não podia tirar a camisa como ele sempre fazia. Ah, e pensando na quantidade de “Geisy da Uniban” que vai aparecer ano que vem no carnaval de Olinda… podiam levar junto um saco cheio de pedras pra jogar no machismo que aparecer pela frente. Fica a dica!

Pra quem tá acompanhando a Mostra, ainda dá tempo de ver Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro. É brodagem, não deixem de ver!
Ai, ai… saudade de passar férias aqui…

ULS - Flyer 33 Mostra SP

Hoje à tarde estava eu tomando banho tranquilamente e, de repente, debaixo da janela do meu banheiro, ocorre o seguinte diálogo:

- eu quero a corda!
- corda? corda não é brinquedo de menino…
- eu quero a cooordaaaaaaaa!
- corda é brinquedo de menina! você por acaso é menina?
- …

Silêncio. Soluços. E eis o berro dos injustiçados:
- aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!

Em poucos segundos, o grito foi ficando distante e fez-se novo silêncio. Imaginei a mãe arrastando o filho em prantos pra dentro de casa, bem longe dos olhares das outras crianças que brincam aqui na rua no fim de semana. Pensei em ligar pro Conselho Tutelar e denunciar tamanha violência, mas iam rir da minha cara, óbvio. Pensei em escrever um conto sobre um menino traumatizado na infância porque a mãe não o deixava pular corda, daí ele se descobre homossexual na adolescência, mas diante da forte repressão da família, ele se enforca com a tal da corda. Ou enforca os pais? Não decidi. Só consegui me sentir deprimida.

Enquanto tirava o xampu do cabelo, fiquei pensando no menino, coitado. Em todos os meninos desse mundo, coitados! E em todas as meninas também, coitadas! E em todas as crianças – de todos os sexos, classes sociais, raças e religiões – que antes mesmo de respirar o ar desse mundo já são separadas em caixinhas muito bem vedadas: a dos meninos, azul; e a das meninas, rosa; cada uma com seu manual de instruções. Lá certamente deve estar escrito: pular corda não é brincadeira de menino.

Senti uma tristeza profunda de fazer parte de um mundo que funciona assim. Lembrei de uma matéria que está na Carta Capital desta semana sobre a primeira viagem como comandante da Marinha de Hildelene Lobato Bahia, primeira mulher a ocupar o posto no Brasil. Pensei em quantas mulheres ainda precisam realizar pela primeira vez feitos de homens. E quantas delas serão negras? Pensei por fim nos meus amigos e amigas. Homens, mulheres, heterossexuais, bissexuais, gays, lésbicas, e possivelmente outras classificações que não conheço. E senti orgulho de ter entre as pessoas especiais da minha vida muitas que decidiram quebrar a caixinha e rasgar o manual de instruções publicamente.

Saí do banho, o choro da criança ainda me perturbava o juízo, mas pensar nas caixinhas quebradas me animava. Troquei-me – saia preta, blusa rosa, fivelinha de flor no cabelo, rosa, pra combinar com a blusa -, calcei-me – sandália de lacinho, preta e rosa. Depois peguei minha  bolsa (não era rosa, era preta…), joguei dentro meu mais recém-adquirido livro feminista “Problems of Women’s Liberation”, de Evelyn Reed (comprado de uma velhinha comunista nas ruas de Montreal)  e saí. Na rua os meninos jogavam bola e, para minha surpresa e alegria, no time dos “com camisa” tinha uma menina…

PS: Trilha sonora da tarde de domingo…

Sim, elas continuam ridículas, mas não do mesmo jeito. Fernando Pessoa nem sonhava com o que a era da internet seria capaz de fazer com as car… ops, os emails! de amor. A primeira mudança é que as cartas de amor propriamente ditas são hoje objetos cada vez mais raros. Orgulhe-se se alguma criatura ainda perder seu precioso tempo escolhendo o papel, rabiscando-o uma, duas, três vezes, e depois de pelo menos umas sete folhas devidamente amassadas conseguir escrever do punho uma carta de amor… daquelas que começam com uma bela caligrafia e terminam com letras tortas que às vezes sobem pelas laterais porque, afinal, aquela é a última folha depois de tantas na lata do lixo. Ah, e a assinatura no final precisa vir acompanhada de um coração – claro, com as iniciais da dupla no meio senão não fica suficientemente ridículo – e o verso da folha precisa ter uma descuidada mancha de molho de tomate ou um pingo de azeite intruso ou ainda, de propósito, um cheirinho de perfume. Do seu preferido.

Certamente os emails de amor já encontraram formas de adaptar tanta frescura ao mundo virtual. Letras coloridas, figuras brilhantes e animadas, montagens de fotos – sim, a dupla emoldurada por todo tipo de coração possível – e vídeos do youtube com todas as versão encontradas da música que serviu de trilha sonora para o primeiro beijo do dito e da dita cuja. Perfeito. Nada mais ridículo. Vida longa às cartas de amor! Sim, porque até aqui mudamos apenas a plataforma, o suporte físico. A essência do ridículo permanece. Mas o que Pessoa não podia imaginar – e nem eu, até hoje, a exatamente uma hora atrás – era o que o CTRL C + CTRL V seria capaz de fazer com as cartas de amor. É duro de acreditar, mas tem cara por aí copiando e colando carta de amor! A era da internet permitiu que elas finalmente chegassem à era do fordismo! Alguma coisa ainda se salva? Se antes levavam uma madrugada inteira em claro para serem caprichosamente escritas, agora podem levar menos de 30 segundos!

Parece mentira, mas é a mais pura verdade: o picareta escreveu o mesmo email pra minha amiga e pra outra garota. Não contava ele com a possibilidade de que – num mundo tão pequeno, ou melhor, num mundo de renda tão concentrada – as duas viessem a se conhecer e se tornassem amigas! Pois é: baladinha na Vila Madalena, muitos amigos em comum, cerveja, caipirinha, conversa vai, conversa vem… ah, você conhece o fulano? Nossa, ele é lindo, né? Saí com ele semana passada! Jura? Mas faz duas semanas que viajamos juntos pra praia… ele inclusive me escreveu ontem, estava com saudade, não conseguia parar de pensar em nós, queria me ver. Que engraçado, acho que eu também recebi esse email ontem… como é que terminava? Tinha um poema do Vinicius???

Eu só consegui pensar duas coisas depois de ouvir essa história: sorte de Pessoa que viveu num tempo em que todas as cartas de amor eram verdadeiramente ridículas. E que pena que a vida não tem CTRL Z prum sujeito babaca que não sabe o que é isso.

Se é que o Xico Sá está certo, tenho lá minhas dúvidas, me pergunto qual que era o discurso tradicional das mulheres antes do “estou confusa”. Era um discurso determinado, decidido, de mulheres seguras de si? Chegavam lá, pá e bufe, e diziam sim ou não? É esse o discurso das moças lá nos cafundós dos sertões profundos? Não, acho que não.

Lá nos canfudós, onde tive oportunidade de passar um tempo pesquisando sobre violência contra a mulher pro meu trabalho de conclusão de curso no jornalismo, predomina até hoje o discurso do silêncio. Isso porque é muito comum que nesses lugares, onde homem é homem e mulher é mulher, sexo e violência sejam quase sinônimos. Como o Estado praticamente não existe, vale a máxima “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

Quem dera pudessem estar confusas, pedir um tempo pra pensar, olhar pros lados, espreitar outras possibilidades… trocar de parceiro quando quisessem, desejar sem culpa, casar e descasar, exercitar a curiosidade sexual, descobrir o que dá prazer, falar o que é bom e o que é ruim, despachar o parceiro quando não tivessem a fim sem medo de serem estupradas, ter dúvidas sobre a maternidade, sobre o casamento, sobre o príncipe encantado… e se ele for uma princesa? E se nenhum dos dois existir? E se é possível ser feliz sozinha, com vários parceiros ou sem nenhum? Oh, que bom poder estar confusa!

Deixando pra trás os cafundós, outro dia estava eu num taxi aqui em São Paulo, reconheci o sotaque familiar do motorista e decidi puxar assunto pra ser simpática. O sujeito contou que mora aqui há 15 anos, que está muito bem obrigado e que não quer voltar pro interior de Pernambuco, não. Na verdade, ele só vai voltar lá “pra buscar uma mulher da roça, porque nunca mais quero caso com mulher de cidade grande, não. Essas daqui, nenhuma presta. Nem as do Recife. Tem que ser do interior”. Eu tive ímpetos de discutir com o sujeito, claro, mas levou apenas um segundo pra eu lembrar que era ele quem estava na direção, então respondi apenas um “ahn ham”, meio sem graça, e respirei aliviada quando saí do carro.

Fico aqui pensando nas minhas grandes amigas desse Brasilzão. Só tem mulherão. São lindas, inteligentes, decididas, donas de si, de seus corpos, de suas vidas. Vivem um monte de contradições em seus relacionamentos, é verdade. É o preço que pagam por serem tudo isso num mundo ainda muito machista. E vale a pena. Mas por mais seguras de si que sejam, todas elas têm dúvidas, angústias, medos. Sim, somos todas muito confusas. Decididamente confusas. E que bom!